Retorno inaceitável

Um dos maiores problemas sociais que acometeram o País ensaia um retorno. Reportagem de jornal carioca afirma que o Brasil pode voltar ao mapa da fome, decorrente do desemprego maciço e da crise econômica e fiscal.
O aviso vem de relatório produzido por um conjunto de mais de 40 entidades da sociedade civil, incumbido de monitorar o cumprimento das metas de desenvolvimento estabelecidas na agenda 2030, firmada entre membros da ONU. A ser entregue às Nações Unidas, o estudo, cujos detalhes ainda não foram divulgados, evidencia o impacto devastador que a recessão causou e segue gerando.
Com o desmantelo da renda nos últimos anos, a estrutura social sofreu uma severa cisão, de proporções ainda a serem conhecidas. Notadamente, a pressão maior recai sobre os mais pobres. Durante o período de decolagem do PIB, sobretudo na década passada, o amplo acesso ao emprego e a proliferação de programas sociais possibilitaram uma ascensão vigorosa, fenômeno que vem se revertendo rapidamente.
Não surpreende o retorno da fome, em face da sensível piora nos principais indicadores sociais, desencadeada pela incompetência na gestão das finanças públicas e da infindável instabilidade política. Não obstante, ainda assim, trata-se de algo preocupante. A falta de comida é um dos males mais abomináveis do subdesenvolvimento, perigo o qual vinha se afastando cada vez mais das famílias brasileiras.
A insegurança alimentar volta a assombrar o Brasil, pouco tempo após uma conquista histórica: a saída do radar da fome da ONU, em 2014. O País se transformara em modelo internacional por conseguir erradicar a fome e reduzir a miséria. Entre 2003 e 2014, a desnutrição caiu de 10,7% para 5%. Àquela altura, era líder do ranking de países em desenvolvimento com as políticas mais eficientes no combate à fome, como o programa Fome Zero. Todavia, ao ignorar por muito tempo as reformas fiscais necessárias à sustentabilidade econômica, abriu-se espaço para o retorno do problema.
Os recentes cortes no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA) são apontados por especialistas como outro entrave importante. Por meio desse mecanismo, o governo adquire produtos de pequenos produtores e os destina a pessoas suscetíveis à insegurança alimentar, em hospitais, escolas e restaurantes populares. Em 2012, foram investidos mais de R$ 830 milhões; no ano passado, somente R$ 380 milhões e, para 2017, a previsão é de R$ 330 milhões.
O pente fino passado em programas sociais deixou muitas famílias desamparadas. E a própria dependência desses recursos também expõe a fragilidade da economia nacional, que já não consegue abrir oportunidades de trabalho; prova disso são os quase 14 milhões de desempregados. A fome e o desemprego caminham com ligação intrínseca. A fim de evitar que o fantasma da privação alimentar regresse, é premente a necessidade de reduzir a cratera que tomou conta do mercado de trabalho. Em paralelo, os programas que visam a garantir comida a todos os brasileiros são prioritários e não devem ser cortados.
A questão deve ser pensada a longo prazo. Se a União e os estados não garantirem uma estratégia fiscal rígida, transparente e previdente, as camadas mais carentes poderão ser lançadas ao abismo do desamparo.

 Diário do Nordeste
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